terça-feira, 8 de março de 2011

SOBRE O LONGE E AS DISTÂNCIAS QUE NÃO PERCORREMOS


A manhã tinha chegado da forma preguiçosa de sempre, a chuva compunha melodias atonais e os pingos insistiam em escorregar nos galhos da cerejeira da janela do meu quarto, o som da natureza despertava certa calma externa em contrapontos com meu caos interno, mesmo acordado fiquei um tempo na cama tentando dar um fluxo mínimo às idéias ainda sonâmbulas para que o dia tivesse algum sentido, o dia tinha iniciado seu ciclo, de amanhecer para depois anoitecer e continuar tudo igual, o dia novo sempre trás o gosto do ontem e o mundo segue esse ciclo absolutamente alheio a você. Era domingo, os domingo sempre são vazios, os vizinhos vão a alguma praça ou parque distante daqui, parece que o nós faz feliz nunca esta por perto, às vezes parece mais fácil mensurar o que esta longe do que enxergar o que está próximo. Levantei e agora a casa parece mais ampla depois que você partiu, as distâncias parecem maiores quando não há ninguém para delimitar espaços, fui até a cozinha e sabia que não tinha pão e necessitava ir à padaria para comprá-lo, sempre acordamos com a incumbência de suprir algo Peguei as últimas moedas que tinha e me dirigi a porta, fiquei indeciso se devia sair e deixar a casa sozinha talvez você regressasse, sei dessa impossibilidade, mas por mais que sustente minha descrença no mundo é quase instintivo o anseio por sentimentos bons e acontecimentos significantes, mesmo em uma manhã de domingo em que nada acontece.
Há uma padaria logo na esquina, mas o pão é melhor na que esta a 15 quadras de minha casa, às vezes parece que tudo no mundo foi feito para se manter distância e se verdade que o universo esta em expansão, então a cada momento ficamos mais distantes. Acredito que deva realmente sair para a rua, lembro que você dizia que lá fora é um mar de possibilidade, mas tenho medo de ficar nadando nesse mar atrás de um porto que talvez nem exista, onde somos cercados por arquipélagos vazios. Tanto faz, abro a porta e saio em direção a padaria, dizem que é bom caminhar para aliviar pensamentos, passo pela rua onde brincam crianças com sua pele sem rugas e que não sabem nada da vida, diferente do velhos ali da esquina com sua pele com rugas e que não sabem nada da vida tanto quanto eu. Estou caminhando há 10 minutos, mas não importa quantos caminhos percorra as lembranças sempre estão próximas, mas é necessário um esforço, pois você pensa que nunca vai esquecer, mas vai e de repente de forma distraída encontra um rascunho e vai pensar qual foi o sentido daquilo, vai conhecer outra pessoa e não vai dar certo e que nunca lhe aconteceu nada, nem remotamente parecido com isso e jamais acontecera de novo e que o amor talvez não tenha sido feito para nos fazer feliz, mas para nos sentirmos vivos e teme essa felicidade. E no final é tudo sobre o que passou e deveria ter sido diferente.
Comprei os pães, era hora de voltar pra casa que se encontra tão distante daqui que talvez nem exista mais.