É a terceira ou quinta vez que começo essa linha, levanto mais uma vez e vou ao banheiro lavar o rosto, olho no espelho no fundo dentro dos meus próprios olhos tentando me transmitir confiança e retorno para minha escrivaninha, mas até agora nada. Se realmente os especialistas em lingüística estiverem certos de que o ser humano nasce predisposto para a comunicação, não sei por que me é tão difícil transmitir aquilo que brota espontaneamente em mim, talvez Saussure e o outros não levasse em consideração pessoas tímidas em seus estudos.
Ser tímido é muito complicado é como se você fosse a usina de Fukushima ambulante sempre predisposto a uma tragédia, dessa forma todo ato parece preso a grilhões de uma possível catástrofe, se caminhar possivelmente irei tropeçar na frente de alguém, se falar certamente direi alguma coisa completamente idiota e se escrever fatalmente farei um texto sem concretude, qualidade discursiva e objetividade, pois em mim há um grande abismo entre a próxima palavra falada ou o próximo verbo escrito, é como se minha mente fosse a morada perfeita para um vespeiro de incertezas e medos esperando a hora certa de surgir de trás de cada ação. Que eu me recorde esse vespeiro sempre esteve presente em minha vida mesmo antes de eu nascer, pois como minha mãe já tinha 40 anos e abortado duas vezes, eu era dado como uma gravidez de risco e incerta, se fosse um filme certamente eu nasceria com algum superpoder ou com três pernas, um olho só, mas sobrevivi e nasci normalmente, tenho apenas um formato irregular da córnea que não faz eu ter um raio-x nos olhos mas apenas uma impossibilidade de focar objetos distantes de mim e diferentemente de super-heróis que escondem sua identidade por desconhecer até onde vai sua força, eu me escondo por não saber até onde vai minha fragilidade.
Desde então a timidez sempre me acompanhou, dessa forma não sei se o fato de ter acertado apenas 3 questões em física no vestibular se deve à uma inaptidão natural com formulas e números ou foi causado pelas inúmeras vezes que deixei de levantar o braço para esclarecer um duvida na escola, assim escondia minhas dúvidas e boa parte de meu sentimentos em meus silêncios. Já tentei me livrar desses grilhões de acanhamento, na adolescência fiz parte de um grupo de teatro por que acreditava que era uma boa maneira de me expressar, lá me permitia errar, pois as histórias parecem mais simples quando você não é o protagonista, porém não consegui estrear a peça. Uma crise de pânico me impediu de estar no palco, não sabia até onde eu tinha força para agüentar o olhar do outro olhando sobre mim e não voltei ao teatro.
Durante minha vivência tive experiências que fizeram afrouxar esses grilhões de timidez como um voluntariado que fiz em um ong de meu bairro onde atendia em uma biblioteca fazendo a mediação entre os livros e as pessoas e no meu cursinho vestibular onde não me via mais apenas como um aluno, mas sim como parte de um projeto. Claro que ainda esbarro em meus silêncios e medos, mas creio que todo esse silêncios queria se tornar palavras e ser escutado.
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