sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Quando as barras de neugebauer terminarem


Incomodava-me um pouco enxergar neste rosto velho um pouco de mim e em cada ruga um pedaço meu – sacrifício diligente para que eu pudesse ser alguém na vida. A fraqueza nas pernas magras e os lapsos de memória que ocasionalmente atingem suas historias fazendo com que eu preencha algumas lacunas, me atordoam e fazem ter vontade de fugir.
Talvez devesse me sentir culpado por comover-me mais com uma vida que chega do que com essa que aos poucos se vai. Afinal há uma parte da minha história sentada ali na sala, meu sangue, meu sobrenome.
Talvez devesse me sentir culpado por não sentir-me tocado por esses laços naturais. Às vezes penso nesses vinte e poucos anos que nos conhecemos, lembro de tantas histórias, a maioria da minha infância. Lembro de como gostava de quando ele voltava do seu trabalho e sempre me trazia um barra de chocolate neugebauer e eu me orgulhava de contar para meus amigos sobre a sua profissão. Ele sempre dizia que havia algo guardado de bom pra mim, ele sempre teve essa esperança no melhor de tudo e que sempre me dava a mão ao atravessar ruas perigosas, fico pensando quando foi que paramos de nos dar as mãos ao atravessar as ruas perigosas e quando foi que parei de atravessar ruas perigosas. Mas penso também que nunca fomos próximos o suficiente. Nos respeitamos e temos carinho um pelo outro, é verdade, mas não tenho convicção de afirmar um sentimento maior, e talvez devesse me sentir culpado por isso também.
É impressionante de como ao crescermos nossas fantasias vão se quebrando, lembro de que quando pequeno o imaginava praticamente como um herói muito superior, é difícil ver que aquela face já não é a mesma dos meus tempos de criança, sua pele enrugada era bem diferente da que estava no retrato da parede. E aqueles cabelos brancos pareciam me dizer que o tempo havia passado sem me dar conta ou que eu não estava presente.
Tudo em nossa casa permanece igual, assim como os sons rotineiros vindos da cozinha pela manhã, esses sons sempre eram os mesmos e seguiam uma ordem imutável: os pés batendo contra o chão, uma tosse, o som da torneira ligando enchendo a chaleira para mate e o som do rádio ligando que sempre ficava mal sintonizado, desta forma o rádio sempre ficava entre um noticiário da farroupilha e um crente berrando sobre a ira Deus ou nas segundas que ficava entre os comentários do futebol da gaúcha e alguma noticia de uma estação que nunca consegui distinguir. Eu levantava normalmente nessa hora e enquanto a rádio noticiava que a NASA se reunia para afirmar vida em Marte, eu via uma existência muito mais perto e tão mais desconhecida ali na cozinha. Víamos-nos um no outro, era como se fôssemos espelho, e eu não sabia se refletia o que ele queria, podíamos dizer tanta coisa, mas esbarrávamos na eloqüência de nossos silêncios.
Penso que deveria me sentir culpado mais uma vez por ser tão parecido com meu pai e não conseguir a sintonia necessária para amá-lo da forma como deveria, sinto que deixei de aprender muito e que também deixaste de ensinar um bocado, nessas horas penso que se pudéssemos sentir antes o que nos fará falta depois, a saudade seria opcional, antecipada ou, quem sabe, até mesmo evitável.
Os ponteiros do relógio da sala avançam sempre para a mesma direção. É só o tempo, mas atualmente tenho temido muito o tempo, tenho acreditado que a função do tempo é apenas aniquilar e acabar com tudo que existe, pois assim como terminaram a barras de chocolate da neugebauer fico pensando quando o tempo também levara meu pai, mas busco não pensar muito nisso e pensar como ele, pois enquanto o inverno da velhice tem encurtado os seus dias . Basta que sempre se espere o melhor de tudo

Sobre o Silêncio e Palavras


É a terceira ou quinta vez que começo essa linha, levanto mais uma vez e vou ao banheiro lavar o rosto, olho no espelho no fundo dentro dos meus próprios olhos tentando me transmitir confiança e retorno para minha escrivaninha, mas até agora nada. Se realmente os especialistas em lingüística estiverem certos de que o ser humano nasce predisposto para a comunicação, não sei por que me é tão difícil transmitir aquilo que brota espontaneamente em mim, talvez Saussure e o outros não levasse em consideração pessoas tímidas em seus estudos.
Ser tímido é muito complicado é como se você fosse a usina de Fukushima ambulante sempre predisposto a uma tragédia, dessa forma todo ato parece preso a grilhões de uma possível catástrofe, se caminhar possivelmente irei tropeçar na frente de alguém, se falar certamente direi alguma coisa completamente idiota e se escrever fatalmente farei um texto sem concretude, qualidade discursiva e objetividade, pois em mim há um grande abismo entre a próxima palavra falada ou o próximo verbo escrito, é como se minha mente fosse a morada perfeita para um vespeiro de incertezas e medos esperando a hora certa de surgir de trás de cada ação. Que eu me recorde esse vespeiro sempre esteve presente em minha vida mesmo antes de eu nascer, pois como minha mãe já tinha 40 anos e abortado duas vezes, eu era dado como uma gravidez de risco e incerta, se fosse um filme certamente eu nasceria com algum superpoder ou com três pernas, um olho só, mas sobrevivi e nasci normalmente, tenho apenas um formato irregular da córnea que não faz eu ter um raio-x nos olhos mas apenas uma impossibilidade de focar objetos distantes de mim e diferentemente de super-heróis que escondem sua identidade por desconhecer até onde vai sua força, eu me escondo por não saber até onde vai minha fragilidade.
Desde então a timidez sempre me acompanhou, dessa forma não sei se o fato de ter acertado apenas 3 questões em física no vestibular se deve à uma inaptidão natural com formulas e números ou foi causado pelas inúmeras vezes que deixei de levantar o braço para esclarecer um duvida na escola, assim escondia minhas dúvidas e boa parte de meu sentimentos em meus silêncios. Já tentei me livrar desses grilhões de acanhamento, na adolescência fiz parte de um grupo de teatro por que acreditava que era uma boa maneira de me expressar, lá me permitia errar, pois as histórias parecem mais simples quando você não é o protagonista, porém não consegui estrear a peça. Uma crise de pânico me impediu de estar no palco, não sabia até onde eu tinha força para agüentar o olhar do outro olhando sobre mim e não voltei ao teatro.
Durante minha vivência tive experiências que fizeram afrouxar esses grilhões de timidez como um voluntariado que fiz em um ong de meu bairro onde atendia em uma biblioteca fazendo a mediação entre os livros e as pessoas e no meu cursinho vestibular onde não me via mais apenas como um aluno, mas sim como parte de um projeto. Claro que ainda esbarro em meus silêncios e medos, mas creio que todo esse silêncios queria se tornar palavras e ser escutado.