Canta, oh musa! Sobre o longínquo setembro de 2008, no qual o Ministério das Cidades promoveu um seminário em Porto Alegre, dirigido à indústria da construção, em que foram expostas as oportunidades abertas com o PAC da Copa 2014, embora, nenhuma sede já estivesse definida naquele momento. Foram apresentadas as exigências da FIFA em relação à infra-estrutura urbana requerida para uma cidade sediar a Copa do Mundo. Diferentemente de outras capitais, Porto Alegre não teria que construir estádios novos, apenas reformar o Beira Rio, o único a ter condições de sediar os jogos da Copa, além de obras gerais na cidade.
No entanto, os empreendedores foram brindados com a “generosidade” do governo FF (Fogaça e Fortunatti) e com a “sensibilidade” da então governadora Yeda Crusius que simplificaram os processos de liberação de verbas e empréstimos para quaisquer projetos ligados ao PAC da Copa, além de conceder isenção fiscal de todos os impostos municipais e estaduais aos mesmos. Dessa forma bilhões e bilhões de reais foram transferidos para o setor privado através da alteração dos regimes urbanísticos de grandes áreas, para construções de prédios, shoppings centers, hotéis, centros de convenções, edifícios para apartamentos residenciais, que nada têm a ver com as exigências da FIFA, que se referem especificamente à segurança pública, atendimento à saúde, hospedagem, alimentação e transporte. Isso torna difícil compreender porque o estádio dos Eucaliptos, Olímpico e Arena do Grêmio podem ser considerados dentro do PAC da Copa, pois não serão utilizados no evento, e o Arena do Grêmio dispõe de um prazo de 20 anos para ser executado. Assim sendo, parece que essas construções extras foram integradas aos projetos com o intuito de se beneficiar das vantagens da isenção fiscal, e da simplificação dos processos de análise.
O que acontece em Porto Alegre mostra, na verdade, que a Copa de 2014 está sendo usada como motivo para que se altere o regime urbanístico sem critérios, sem estudos e sem discussão e participação pública necessária. Essas transformações urbanísticas, embora tenha um discurso de modernização da cidade, em uma das formas que esta sendo feita essas obras nos remete ao século XIX na França que excluía de seu espaço urbano as camadas mais pobres de sua população, dessa forma a expropriação virou algo comum respaldada por um consenso construído pela grande mídia em prol desses empreendimentos.
Além disso, enquanto essas “grandiosas obras” são realizadas, problemas antigos permanecem sem solução, pois segundo o orçamento participativo (2005-2009) 68 % das demandas ligadas a questão habitacional não estão concluídas e essa questão só tende a se agravar, pois os moradores expropriados são enviados para bairros sem a menor planejamento para esses novos habitantes, como o caso aqui Lomba do Pinheiro em que são construídos residenciais ou novas casas, mas não há um aumento nos serviços para os moradores, assim sendo os atendimentos em postos de saúde, transporte coletivo, escolas não dão conta desse aumento populacional desenfreado. Parece que a Secretaria de Planejamento Urbano que já não tinha grande poder se tornou totalmente nula com a criação da Secretaria da Copa.
Assim sendo, Porto Alegre parece que esta se tornando um grande feudo, mas ao contrario do feudo que se cercava para se proteger de invasões bárbaras, a capital gaúcha parece proteger a cidade da própria população, tornando o consumo o único ato social não passível de criminalização. Ou seja, quem não tem dinheiro fica fora do feudo.