
Já faz três dias que estou nessa prisão, não diretos, pois parei para comer algumas bolachas, diferentemente das prisões habituais esta apresenta grades horizontais e uma grande barra vertical vermelha, talvez do sangue de outros prisioneiros que não suportando mais a prisão cometeram suicídio. É sexta-feira 20h30min e eu estou sentado aqui olhando para uma folha vazia, tentando encontrar um ponto de partida. Esta é a ironia. Não é como se eu não tivesse nada a dizer, há tantas coisas a dizer sobre Mubarak, Wikileaks, aumento das passagens de ônibus, contratações do Grêmio, descoberta de um novo elemento da tabela periódica, acontecimentos prosaicos que eu não sei por onde começar. Tudo bem, é só encontrar um ponto de partida, mas como começar?
Estou com fome... Da cozinha vem um cheiro bom de bolo, eu deveria tomar um café, isso iria me ajudar a pensar. Talvez eu devesse escrever algo primeiro e depois me recompensar com café, é difícil concatenar idéias com o cheiro de chocolate invadindo tuas narinas Ok, então eu preciso criar os temas e dar asas as minhas idéias, se é verdade que as idéias têm asas, as minhas devem ter migrado para um lugar bem longe daqui. Começo a suar, culpa desse verão infernal que causa desidratação que por sua vez acarreta lentidão mental e desconexão de idéias, parece ser uma explicação bem plausível para minha dificuldade, é sempre melhor incriminar algum fator externo para podermos ir embora sem culpa e com os ombros mais leves.
Já faz duas horas que estou aqui e até agora não consegui preencher os vãos entre as grades, começo a batucar a caneta na mesa e os pés no chão compondo uma melodia descompassada, como se essa melodia pudesse me auxiliar em algo, olho pelo espaço do quarto, os livros empoeirados, o bolor começando nas paredes, fico olhando como se buscasse algo perdido que me gere uma epifania, uma barata passou por um livro, mas a Clarice Lispector já escreveu sobre isso. Lá fora faz um silêncio malditos vizinhos enquanto estou aqui sofrendo para escrever um texto, certamente nessa hora estão todos olhando a novela das oito e sua historia repetitiva e piegas, fico a pensar como alguém ganha tanto dinheiro escrevendo novela, qualquer um consegue escrever aquilo, mas a quem quero enganar se não consigo escrever nenhuma linha de uma dissertação como conseguiria escrever uma novela. Começa a ficar difícil segurar a caneta pelo suor das mãos, os dedos começam a doer sinal de uma inaptidão natural para a escrita, ligo o computador para fugir das obrigações cotidianas, procrastinar sempre foi um grande hábito meu, esse eterno deixar pra daqui a pouco, as janelas do orkut e MSN piscam de uma forma tão convidativa que é dificl resistir. Passaram-se três horas, tento anotar idéia para que assim forme-se um quadro lógico, mas minha mente parece estar em um estado entrópico e o quadro parece ter sido pintado pelo Max Ernest. Nada ainda apenas esse vasto deserto branco a minha frente.
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