quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A couraça moralista e as burcas invisíveis





Na música Não existe pecado do lado de baixo do Equador’, de Chico Buarque, o compositor mostra uma idéia que faz parte do inconsciente coletivo brasileiro: o Brasil é um páis totalmente liberal em relação a sensualidade feminina. Em oposição a cultura do Oriente Médio, retrata em alguns filmes como Caminho de Kandahar e Osama, mostra mulheres obrigadas ao uso de burcas e condenadas a uma vida vigiada como se fossem a própria encarnação de um suposto pecado original.
Aparentemente, há um grande abismo que divide essas duas realidades, no entanto existe um movimento convergente entre ambas ao notar que as burcas usadas pelas mulheres afegãs não as escondem mais do que as sujeições que punem nossas mulheres brasileiras – somente aqui o manto é invisível. No Brasil, não se cortam braços nem pernas, nem as mulheres são apedrejadas. Aqui, obedecendo a semelhantes princípios islâmicos, corta-se a dignidade, a visão de mundo, a percepção de si e a liberdade com um discurso patriarcal moralizador.
O grande detentor desse discuro é o poder midiático embuido de uma grande hipocrisia, pois ao mesmo tempo que explora a sensualidade feminina em seus comerciais, novelas e programas, no âmbito social condena qualquer mulher com uma atitude sensaul e embora não a apedrejemos em praça pública, lançamos contra ela nossos preconceitos, como no caso da UNIBAN.
Se o nosso olhar sobre a realidade afegã causa-nos estranhamento e repulsa pelo que identificamos, que este olhar tenha um efeito bumerangue, capaz de nos fazer perceber a nós mesmo, pois moral é autonomia, que é imposta pela consciência do individuo e nos a julgamos a partir de nossos princípios e experiências e deixamos de levar em conta que o outro tem outros princípios e experiências.

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