terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Sobre Fevereiro e Copérnico


Porto Alegre como todo o território gaúcho é mergulhado em suas tradições, essas tradições acabam entrando no inconsciente coletivo e muitas vezes as seguimos sem uma criticidade, exemplo disso é a semana farroupilha que comemoramos como se tratasse de uma revolução quando na verdade foi uma revolta de uma elite em busca de seus interesses, no entanto, a semana do vinte de setembro faz parte do calendário oficial da cidade e isso é muito natural e inevitável para nós. Na contemporaneidade mais dois eventos têm entrado no calendário oficial da capital gaúcha em fevereiro, além do carnaval, a temporada do Tangos & Tragédias e o aumento de passagens.
Esse aumento é sistemático e ocorre ano após ano, sempre em fevereiro, pois os empresários do transporte e a prefeitura aproveitam desse período de férias escolares para as escondidas e de forma rápida aplicarem os reajustes de passagem, nesse ano para R$ 2,70, dessa forma o salário mínimo aumentou 6%, o salário dos deputados 62% e a passagem 10 %, isso é tão incoerente quanto o modelo de transporte atual – que está longe de ser público, além do que esse aumento não converge em melhoria do serviço prestado ou renovação da frota de ônibus.
Esse aumento não fere somente nossos bolsos, mas também nosso direito de ir e vir, pois tanto as empresas como a prefeitura parecem entender que o transporte coletivo é apenas uma fonte de lucro, no entanto sabemos que isso não é verdade, pois o transporte coletivo é uma necessidade básica e diária da população que permite acesso a outros direitos fundamentais, como trabalho, saúde e educação.
Embora exista vários atos contra o aumento de tarifas do tranporte em várias cidades do Brasil, evidenciando o descontentamento da população com esses reajustes, aqui em Porto Alegre parece que somos domados pelo calendário oficial de fevereiro, dessa forma parece que a música copérnico do Tangos & Tragédias transpassa a Praça da Matriz e atinge todos os cidadãos e acabamos dançando o copérnico cidadão, onde você não pode mexer com a pernas, não pode mexer com as mãos, apenas balança a cabeça em sinal de indignação, dessa forma parece que a nossa Sbórnia é uma ilha de passividade estancada.
Não sei precisar em qual curva da historia nos tornamos tão omissos, talvez naquela década de tantas privatizações, tenham privatizado também nossa capacidade de revolta que empurra para mudanças.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

O Branco


Já faz três dias que estou nessa prisão, não diretos, pois parei para comer algumas bolachas, diferentemente das prisões habituais esta apresenta grades horizontais e uma grande barra vertical vermelha, talvez do sangue de outros prisioneiros que não suportando mais a prisão cometeram suicídio. É sexta-feira 20h30min e eu estou sentado aqui olhando para uma folha vazia, tentando encontrar um ponto de partida. Esta é a ironia. Não é como se eu não tivesse nada a dizer, há tantas coisas a dizer sobre Mubarak, Wikileaks, aumento das passagens de ônibus, contratações do Grêmio, descoberta de um novo elemento da tabela periódica, acontecimentos prosaicos que eu não sei por onde começar. Tudo bem, é só encontrar um ponto de partida, mas como começar?
Estou com fome... Da cozinha vem um cheiro bom de bolo, eu deveria tomar um café, isso iria me ajudar a pensar. Talvez eu devesse escrever algo primeiro e depois me recompensar com café, é difícil concatenar idéias com o cheiro de chocolate invadindo tuas narinas Ok, então eu preciso criar os temas e dar asas as minhas idéias, se é verdade que as idéias têm asas, as minhas devem ter migrado para um lugar bem longe daqui. Começo a suar, culpa desse verão infernal que causa desidratação que por sua vez acarreta lentidão mental e desconexão de idéias, parece ser uma explicação bem plausível para minha dificuldade, é sempre melhor incriminar algum fator externo para podermos ir embora sem culpa e com os ombros mais leves.
Já faz duas horas que estou aqui e até agora não consegui preencher os vãos entre as grades, começo a batucar a caneta na mesa e os pés no chão compondo uma melodia descompassada, como se essa melodia pudesse me auxiliar em algo, olho pelo espaço do quarto, os livros empoeirados, o bolor começando nas paredes, fico olhando como se buscasse algo perdido que me gere uma epifania, uma barata passou por um livro, mas a Clarice Lispector já escreveu sobre isso. Lá fora faz um silêncio malditos vizinhos enquanto estou aqui sofrendo para escrever um texto, certamente nessa hora estão todos olhando a novela das oito e sua historia repetitiva e piegas, fico a pensar como alguém ganha tanto dinheiro escrevendo novela, qualquer um consegue escrever aquilo, mas a quem quero enganar se não consigo escrever nenhuma linha de uma dissertação como conseguiria escrever uma novela. Começa a ficar difícil segurar a caneta pelo suor das mãos, os dedos começam a doer sinal de uma inaptidão natural para a escrita, ligo o computador para fugir das obrigações cotidianas, procrastinar sempre foi um grande hábito meu, esse eterno deixar pra daqui a pouco, as janelas do orkut e MSN piscam de uma forma tão convidativa que é dificl resistir. Passaram-se três horas, tento anotar idéia para que assim forme-se um quadro lógico, mas minha mente parece estar em um estado entrópico e o quadro parece ter sido pintado pelo Max Ernest. Nada ainda apenas esse vasto deserto branco a minha frente.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A couraça moralista e as burcas invisíveis





Na música Não existe pecado do lado de baixo do Equador’, de Chico Buarque, o compositor mostra uma idéia que faz parte do inconsciente coletivo brasileiro: o Brasil é um páis totalmente liberal em relação a sensualidade feminina. Em oposição a cultura do Oriente Médio, retrata em alguns filmes como Caminho de Kandahar e Osama, mostra mulheres obrigadas ao uso de burcas e condenadas a uma vida vigiada como se fossem a própria encarnação de um suposto pecado original.
Aparentemente, há um grande abismo que divide essas duas realidades, no entanto existe um movimento convergente entre ambas ao notar que as burcas usadas pelas mulheres afegãs não as escondem mais do que as sujeições que punem nossas mulheres brasileiras – somente aqui o manto é invisível. No Brasil, não se cortam braços nem pernas, nem as mulheres são apedrejadas. Aqui, obedecendo a semelhantes princípios islâmicos, corta-se a dignidade, a visão de mundo, a percepção de si e a liberdade com um discurso patriarcal moralizador.
O grande detentor desse discuro é o poder midiático embuido de uma grande hipocrisia, pois ao mesmo tempo que explora a sensualidade feminina em seus comerciais, novelas e programas, no âmbito social condena qualquer mulher com uma atitude sensaul e embora não a apedrejemos em praça pública, lançamos contra ela nossos preconceitos, como no caso da UNIBAN.
Se o nosso olhar sobre a realidade afegã causa-nos estranhamento e repulsa pelo que identificamos, que este olhar tenha um efeito bumerangue, capaz de nos fazer perceber a nós mesmo, pois moral é autonomia, que é imposta pela consciência do individuo e nos a julgamos a partir de nossos princípios e experiências e deixamos de levar em conta que o outro tem outros princípios e experiências.