segunda-feira, 13 de setembro de 2010

VAMPIROS ANDANDO AO SOL


Normalmente, ao nos referir a vampiros, a primeira imagem que vem a nossas cabeças são de monstros sangüinários, pois este é o conceito que nos foi passado por livros e filmes em que não há uma individualidade entre eles, simplesmente são caracterizados assim. Da mesma forma que a literatura e o cinema generalizam os vampiros, a sociedade tem a mesma visão generalista dos moradores de rua.
A sociedade historicamente sempre foi construída através de relações de hierarquia. Dessa forma, a percepção social está condicionada à divisão social, na qual o morador de rua é enxergado apenas por sua condição social e não por sua condição humana. Sendo identidade um conceito pessoal, atribuído a nos pelos outros, isso gera uma invisibilidade social aos moradores de rua.
Se vampiros, na ficção, eram combatido com cruxificios e estacas, a sociedade usa como arma para combater os miseráveis que se arrastam pelas ruas, como vampiros andando ao sol, a indiferença, não os percebendo ou fechando nossas janelas nos semáforos, pois sabemos que vampiros não podem entrar sem ser convidados. Isso gera a marginalização. Enquanto membro de um grupo diferente, sempre buscamos algum fato para provar que o grupo que fazemos parte é bom e que o outro é ruim.
Assim, podemos afirmar que a identidade só existe diante do olhar do outro, sendo na generosidade do olhar desse outro que temos envolvida nossa própria imagem de valor, recebendo significado como humano. A invisibilidade que nos anula figura-se em isolamento, solidão, incomunicabilidade e falta de valor. Por não ser reconhecido, o morador de rua frustra-se, gerando um reação em si, que segue uma resposta interior dividindo-se em algumas possibilidades: aceitação da inferioridade, indiferença com o preconceito sofrido e agressividade.
Essa última possibilidade serve de pilar para justificar as ações discriminatórias da sociedade. No entanto, assim como vampiros atacam pela necessidade de sobrevivência, o mesmo ocorre com alguns moradores de rua. Evidente que apenas isso não justifica a violência, no entanto, comete-se um ato de violência ao desconsiderar o próximo, ou seja, quando excluímos sua condição de ser pensante, de humano, projetando sobre ele uma pessoa anulada, destruindo-o de suas características humanas que o tornam único, fazendo dele um ser sem identidade e classificando-o de acordo com nossa realidade.
Assim sendo, muitas vezes, os tratamos como vampiro, pois somos indiferentes a sua presença no dia e os tememos à noite. Dessa forma, devemos modificar nosso olhar ao morador de rua, que, assim como o vampiro, não escolheu essa situação, isso ocorreu em conseqüências histórica e social e perceber que em algum momento de nossas vidas já passamos por invisíveis também.

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