segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O PURGATÓRIO DO QUASE


No fim de semana, o São José foi eliminado da final da taça Fabio Koff pelo Pelotas. O jogo tinha tudo para ser do São José, time de melhor campanha e com dois jogadores a mais, no entanto, por um detalhe, nos pênaltis, o Pelotas acabou saindo classificado, deixando nos jogadores do Zequinha o sentimento do por pouco. Esse sentimento, o por pouco, se manifesta quando chegamos muito próximo de um objetivo, porém sem alcançá-lo. O por pouco seria o 1% que falta para fechar o 100%, o por pouco seria o purgatório de nossas ações, quando não alcançamos o céu do sucesso e nem ficamos no inferno do fracasso, ficamos nesse limbo do quase, sem ter uma Beatriz de Dante para nos guiar.
Esse purgatório do quase é bastante competido, pois ninguém quer ficar no inferno dos fracassados, pois, embora fracassem, parece mais digno dizer que foi por pouco que não alcançou aquilo que queria, como o time do Zequinha, pois aparenta que dizer que foi por pouco torna menos dolorosa nossas derrotas. Dessa forma, o quase serve, muita vezes, para nos dar a sensação de um certo conforto, um certo bálsamo existencial, algo que nos dá um certo alívio ao termos uma perda- um remédio que não cura, mas acalenta. O quase acaba nos servindo como uma pseudofelicidade, algo muito próximo, no entanto ainda não concretizada.
Dessa forma, se me perguntarem se minha crônica ficou boa, rapidamente responderei, quase.

VAMPIROS ANDANDO AO SOL


Normalmente, ao nos referir a vampiros, a primeira imagem que vem a nossas cabeças são de monstros sangüinários, pois este é o conceito que nos foi passado por livros e filmes em que não há uma individualidade entre eles, simplesmente são caracterizados assim. Da mesma forma que a literatura e o cinema generalizam os vampiros, a sociedade tem a mesma visão generalista dos moradores de rua.
A sociedade historicamente sempre foi construída através de relações de hierarquia. Dessa forma, a percepção social está condicionada à divisão social, na qual o morador de rua é enxergado apenas por sua condição social e não por sua condição humana. Sendo identidade um conceito pessoal, atribuído a nos pelos outros, isso gera uma invisibilidade social aos moradores de rua.
Se vampiros, na ficção, eram combatido com cruxificios e estacas, a sociedade usa como arma para combater os miseráveis que se arrastam pelas ruas, como vampiros andando ao sol, a indiferença, não os percebendo ou fechando nossas janelas nos semáforos, pois sabemos que vampiros não podem entrar sem ser convidados. Isso gera a marginalização. Enquanto membro de um grupo diferente, sempre buscamos algum fato para provar que o grupo que fazemos parte é bom e que o outro é ruim.
Assim, podemos afirmar que a identidade só existe diante do olhar do outro, sendo na generosidade do olhar desse outro que temos envolvida nossa própria imagem de valor, recebendo significado como humano. A invisibilidade que nos anula figura-se em isolamento, solidão, incomunicabilidade e falta de valor. Por não ser reconhecido, o morador de rua frustra-se, gerando um reação em si, que segue uma resposta interior dividindo-se em algumas possibilidades: aceitação da inferioridade, indiferença com o preconceito sofrido e agressividade.
Essa última possibilidade serve de pilar para justificar as ações discriminatórias da sociedade. No entanto, assim como vampiros atacam pela necessidade de sobrevivência, o mesmo ocorre com alguns moradores de rua. Evidente que apenas isso não justifica a violência, no entanto, comete-se um ato de violência ao desconsiderar o próximo, ou seja, quando excluímos sua condição de ser pensante, de humano, projetando sobre ele uma pessoa anulada, destruindo-o de suas características humanas que o tornam único, fazendo dele um ser sem identidade e classificando-o de acordo com nossa realidade.
Assim sendo, muitas vezes, os tratamos como vampiro, pois somos indiferentes a sua presença no dia e os tememos à noite. Dessa forma, devemos modificar nosso olhar ao morador de rua, que, assim como o vampiro, não escolheu essa situação, isso ocorreu em conseqüências histórica e social e perceber que em algum momento de nossas vidas já passamos por invisíveis também.