terça-feira, 5 de outubro de 2010

Entre Pixotes e Seltons Mellos


Assistimos, diariamente, na mídia, exemplos de atores e esportistas que se destacam em suas respectivas áreas, onde geralmente é designado o talento como único fator importante para estes terem conquistado seu espaço no mundo. Dessa forma, parece que o talento vem incrustado na genética, e que, talvez por um erro na permuta gênica, ele não se manifeste em determinadas pessoas como fosse uma habilidade que não podemos adquirir.
É errôneo colocar o talento como único fator que determina o sucesso ou o fracasso do individuo na vida, pois há outros fatores ligados a isso, tais como realidade social, infra-estrutura familiar, e também sorte.
Isso fica exemplificado em dois atores do cinema brasileiro. De um lado temos Selton Mello, do outro, o ator que ficou mais conhecido com o nome de seu personagem Pixote.
No caso de Selton, que é oriundo de uma família rica, desde cedo foi motivado ao meio artístico, tendo incluse, pais que já trabalhavam no cinema- seu primo Wagner Tiso trabalha no meio musical e um irmão mais velho já atua em uma grande rede de TV. Pixote, por sua vez, nunca teve grandes expectativas e teve a sorte de uma produtora vê-lo na rua e o contratar para o filme Pixote- A lei do mais fraco. No entanto, mesmo sendo bastante elogiado e apontado como um grande ator promissor, Pixote não conseguiu superar alguns obstáculos, pois era pobre, tinha uma família sem estrutura e seu irmão mais velho furtava carros.
Mesmo tentando papeis em novela, esbarrava em outra dificuldade, pois não decorava os textos por ser semi-analfabeto. Sem oportunidades, acabou caindo no anonimato e em 1987, enquanto Selton Mello estreiava na novela Sinhá Moça, Pixote era morto, acusado de assalto.
Em um país tão desigual como o Brasil, pensar que com uma aptidão natural o individuo consegue seu lugar no mundo é uma visão muito superficial que parece mascarar essas desigualdades partindo do pressuposto que você tendo talento, alcança seus objetivos. Uma aptidão natural pode ser indicativo de um caminho a seguir, entretanto, não é maneira alguma a garantia de sucesso. Se fosse ao contrário, caso Selton Mello tivesse nascido nas condições de Pixote, será que hoje estaria me referindo a ele pelo seu nome ou o chamaria de o ator que fez Pixote?

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Sonata para um Monstro



Nunca desejei tanto que meu nome fosse outro como naquela noite, porém não havia mais como voltar. Estávamos ali sozinho, ele e eu, enquanto diversos pares de olhos nos vigiavam. Eu, um jovem adolescente, tímido, inseguro, mãos suadas e trêmulas. Ele um enorme monstro preto. De onde estava podia ver seu ventre semi-aberto, suas quatro patas firmemente apoiadas no chão, seus dentes brancos de marfim somavam quase nove dezenas rigidamente emparelhados, a ostentar entre seus vãos espaços pretos regulares como restos das vitimas devoradas e esmagadas pelo seu poder. Eu estava ali, justamente em frente a boca do monstro, tendo que colocar minhas mãos em sua boca escancarada e mexer em seus dentes de marfim por 5 min.: 30 seg.. Chegara a hora de enfrentá-lo.
Tudo isso havia começado muito tempo antes. Sempre gostei de música, muito antes de saber as notas, a música sempre esteve presente em minha casa, pois meu pai tocava gaita de boca e minha mãe, uma assídua ouvinte de rádio, dessa forma cresci ouvindo de Beethoven, Chico Buarque e até Palmeira e Biá, além de ver praticamente todos os clássicos dos westerns, mas o que mais me chamava a atenção não era o Charles Bronson matando Henry Fonda, Clint Eastwood duelando com Gian Maria Volontè ou a cena final de Três Homens em conflito, mas as trilhas sonoras de Ennio Morricone. Certo dia ganhei um saxofone de brinquedo e consegui tocar cai, cai balão, ali meus pais viram um talento incrível e na semana seguinte ganhei um teclado, não sei qual foi a relação que meus pais tiveram entre um sax de brinquedo e um teclado, confesso que fiquei decepcionado ao abrir aquela grande caixa, pois esperava um autorama, mas enfim lá estava meu primeiro instrumento.
Tinha exatamente 9 anos quando ganhei o teclado e logo percebi que havia um grande abismo entre o sax de 7 notas e o teclado e acabei deixando de lado o teclado, mas sempre ficava chateado ao ver meu teclado juntando pó.
Já estava no segundo grau, quando um dia em casa minha mae tinha deixado na rádio universidadee ouço uma musica incrível e apenas uma coisa surgiu em minha mente eu vou aprender a tocar Sonata opus 27 nº 2, inscrevi-me em uma escola de música para piano. Meus pais diziam que a musica estava no meu sangue, mas começava a crer que por algum problema de circulação ela não alcançava meus dedos ou que música realmente fosse algo genético e que por algum erro no crossing over acabei perdendo esse alelo, lá se foram um ano de estudo na escola tocando músicas chatas sobre abelhinhas, cavalinhos que eu não gostava e ficava chateado, pois nas audições de alunos meu nome nunca era citado, estava começando a achar que não tinha sido uma boa idéia tocar piano, afinal Beethoven com 8 anos já compunha, Ennio Morricone com 14 já estava compondo para concertos e eu com 16 mal conseguia tocar o parabéns para você. Até que eu dia lá estava meu nome relacionado para tocar a sonata de Beethoven.
Tinha exatamente 3 meses para decorar e tocar e tocara a música, a palavra de ordem virou treino. Duas, três horas por dia de erros e acerto, pensei em mil vezes desistir ou cortar os pulsos como o Menandro Olinda de Incidente em Antares, embora a sonata que ele não conseguia tocar fosse outra, fiquei mal como o personagem de Érico Veríssimo.
Os 3 meses passaram e lá estava eu, meu nome é chamado e a luz ilumina o pseudo pseudopianista, olho para a platéia e me sinto em uma arena de tourada onde a maioria torce pelo touro, na minha frente o monstro está com a boca aberta e parece sorrir ao avistar carne fresca.
Começo a música, as mãos suam parecendo molhadas pela saliva do monstro, o sangue parece que finalmente alcança os dedos, as mãos estão coordenadas em seus movimentos, não há tempo para pensar, pois um descuido e o monstro pode me engolir, o tempo não era mais importante e a luta segue até o acorde melódico final.
Estava feito. Eu ainda estava vivo. Hoje embora não tenha me tornado um gênio como Beethoven ou um compositor de trilhas como Morricone e tenha me tornado apenas um pianista razoável, uma música composta a mais de duzentos anos me ensinou bem mais coisas sobre a vida, sonhos, medos e monstros construídos pelas minhas projeções.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O PURGATÓRIO DO QUASE


No fim de semana, o São José foi eliminado da final da taça Fabio Koff pelo Pelotas. O jogo tinha tudo para ser do São José, time de melhor campanha e com dois jogadores a mais, no entanto, por um detalhe, nos pênaltis, o Pelotas acabou saindo classificado, deixando nos jogadores do Zequinha o sentimento do por pouco. Esse sentimento, o por pouco, se manifesta quando chegamos muito próximo de um objetivo, porém sem alcançá-lo. O por pouco seria o 1% que falta para fechar o 100%, o por pouco seria o purgatório de nossas ações, quando não alcançamos o céu do sucesso e nem ficamos no inferno do fracasso, ficamos nesse limbo do quase, sem ter uma Beatriz de Dante para nos guiar.
Esse purgatório do quase é bastante competido, pois ninguém quer ficar no inferno dos fracassados, pois, embora fracassem, parece mais digno dizer que foi por pouco que não alcançou aquilo que queria, como o time do Zequinha, pois aparenta que dizer que foi por pouco torna menos dolorosa nossas derrotas. Dessa forma, o quase serve, muita vezes, para nos dar a sensação de um certo conforto, um certo bálsamo existencial, algo que nos dá um certo alívio ao termos uma perda- um remédio que não cura, mas acalenta. O quase acaba nos servindo como uma pseudofelicidade, algo muito próximo, no entanto ainda não concretizada.
Dessa forma, se me perguntarem se minha crônica ficou boa, rapidamente responderei, quase.

VAMPIROS ANDANDO AO SOL


Normalmente, ao nos referir a vampiros, a primeira imagem que vem a nossas cabeças são de monstros sangüinários, pois este é o conceito que nos foi passado por livros e filmes em que não há uma individualidade entre eles, simplesmente são caracterizados assim. Da mesma forma que a literatura e o cinema generalizam os vampiros, a sociedade tem a mesma visão generalista dos moradores de rua.
A sociedade historicamente sempre foi construída através de relações de hierarquia. Dessa forma, a percepção social está condicionada à divisão social, na qual o morador de rua é enxergado apenas por sua condição social e não por sua condição humana. Sendo identidade um conceito pessoal, atribuído a nos pelos outros, isso gera uma invisibilidade social aos moradores de rua.
Se vampiros, na ficção, eram combatido com cruxificios e estacas, a sociedade usa como arma para combater os miseráveis que se arrastam pelas ruas, como vampiros andando ao sol, a indiferença, não os percebendo ou fechando nossas janelas nos semáforos, pois sabemos que vampiros não podem entrar sem ser convidados. Isso gera a marginalização. Enquanto membro de um grupo diferente, sempre buscamos algum fato para provar que o grupo que fazemos parte é bom e que o outro é ruim.
Assim, podemos afirmar que a identidade só existe diante do olhar do outro, sendo na generosidade do olhar desse outro que temos envolvida nossa própria imagem de valor, recebendo significado como humano. A invisibilidade que nos anula figura-se em isolamento, solidão, incomunicabilidade e falta de valor. Por não ser reconhecido, o morador de rua frustra-se, gerando um reação em si, que segue uma resposta interior dividindo-se em algumas possibilidades: aceitação da inferioridade, indiferença com o preconceito sofrido e agressividade.
Essa última possibilidade serve de pilar para justificar as ações discriminatórias da sociedade. No entanto, assim como vampiros atacam pela necessidade de sobrevivência, o mesmo ocorre com alguns moradores de rua. Evidente que apenas isso não justifica a violência, no entanto, comete-se um ato de violência ao desconsiderar o próximo, ou seja, quando excluímos sua condição de ser pensante, de humano, projetando sobre ele uma pessoa anulada, destruindo-o de suas características humanas que o tornam único, fazendo dele um ser sem identidade e classificando-o de acordo com nossa realidade.
Assim sendo, muitas vezes, os tratamos como vampiro, pois somos indiferentes a sua presença no dia e os tememos à noite. Dessa forma, devemos modificar nosso olhar ao morador de rua, que, assim como o vampiro, não escolheu essa situação, isso ocorreu em conseqüências histórica e social e perceber que em algum momento de nossas vidas já passamos por invisíveis também.