Tenho observado que o tempo anda devorando vorazmente meus dias, por isso resolvi te escrever. Hoje lembrei de você ao acordar e abrir a janela e ver pequenos flocos brancos sendo levados pelo vento, não infelizmente não era a neve que quando criança achávamos que chegaria no natal como aqueles filmes americanos, e sim pequenos pedaços de isopor que se soltavam quando as crianças da rua esfregavam contra aquele muro pintado de verde para que esses pedaços tomem formas de barcos para serem soltos na valeta.
Lembra quando fazíamos isto também? E tolamente pensávamos naquele soldadinho de chumbo do livro que líamos e que nossos barcos atravessariam a esquina e passariam incólume todas as correntezas e chegariam ao mar e lá seriam devorados por uma enorme baleia branca.
Sinto o odor da terra daquelas tardes de chuva e de suas gotas compondo pequenas sonatas descompassadas na vidraça enquanto sua mãe contava historias e fritava sonhos com canela.
Nunca mais pensei nos barcos e nos sonhos, apenas cumpro minha rotina inglória de passar oito horas em um escritório entre cigarros e cafés e é assim são os dias nada de incomum ou diferente, são as mesmas casas, as mesmas arvores com sua dança ao vento e algumas vidas existindo lá fora tão discretas quanto as nossas, isso faz com que eu ande meio cansado de procuras inúteis e sedes afetivas insaciáveis e sentindo que existe sempre alguma coisa ausente.
Ainda ouço o ronco do motor daquele dia que você partiu o que mexeu profundamente comigo, pois achava que minha dita existência vinha do fato da não necessidade de ninguém e desde então sinto a ausência em meu lado.