Todos os dias a mesma hora, o mesmo ponto, o mesmo ônibus, o mesmo motorista, o mesmo cobrador, os mesmos passageiros, as mesmas paisagens, o mesmo itinerário, o mesmo terminal. Mariana decidiu então, durante o dia, morar na mesma fileira de bancos sempre vazios do fundo do corredor.
Os olhos não têm opção. Nenhuma chance para além da linha que separa a calçada da rua. Como um muro, os veículos em fila indiana mostram vidros escurecidos, em cujos reflexos a vida move-se fosca e distorcida. Mantém o silêncio para o que não pode ver. Sente a dor dos raios do sol quando se estilhaçam nas cores imóveis dos carros. A sede é de água e os gestos são promessas não cumpridas. Sabe o tempo da renúncia, a vida como musgo entranhada na laje. Os olhos não têm opção. Nem quando o espaço vaza e as velocidades confundem os seus segredos do lado de dentro das lembranças. A morte não é mais sofrimento. A sede é de água e os ventos sopram para além da noite. O que a denuncia é esse fone de ouvido insistente em reproduzir Led Zeppelin a alto volume.
À noite, deseja conhecer a vida. E seu único medo é o de ser a primeira a apagar a luz.
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