quarta-feira, 7 de novembro de 2007

A Carta


Tenho observado que o tempo anda devorando vorazmente meus dias, por isso resolvi te escrever. Hoje lembrei de você ao acordar e abrir a janela e ver pequenos flocos brancos sendo levados pelo vento, não infelizmente não era a neve que quando criança achávamos que chegaria no natal como aqueles filmes americanos, e sim pequenos pedaços de isopor que se soltavam quando as crianças da rua esfregavam contra aquele muro pintado de verde para que esses pedaços tomem formas de barcos para serem soltos na valeta.
Lembra quando fazíamos isto também? E tolamente pensávamos naquele soldadinho de chumbo do livro que líamos e que nossos barcos atravessariam a esquina e passariam incólume todas as correntezas e chegariam ao mar e lá seriam devorados por uma enorme baleia branca.
Sinto o odor da terra daquelas tardes de chuva e de suas gotas compondo pequenas sonatas descompassadas na vidraça enquanto sua mãe contava historias e fritava sonhos com canela.
Nunca mais pensei nos barcos e nos sonhos, apenas cumpro minha rotina inglória de passar oito horas em um escritório entre cigarros e cafés e é assim são os dias nada de incomum ou diferente, são as mesmas casas, as mesmas arvores com sua dança ao vento e algumas vidas existindo lá fora tão discretas quanto as nossas, isso faz com que eu ande meio cansado de procuras inúteis e sedes afetivas insaciáveis e sentindo que existe sempre alguma coisa ausente.
Ainda ouço o ronco do motor daquele dia que você partiu o que mexeu profundamente comigo, pois achava que minha dita existência vinha do fato da não necessidade de ninguém e desde então sinto a ausência em meu lado.

domingo, 23 de setembro de 2007

Ela


Ela adentrou
E pensei que usa presença era efêmera
Ela olhou
E pensei que seu olhar era obliquo
E era o desespero voraz no vazio

Devastou minha calma
Devorou minha alma

Achei-me em teus olhos
Em tuas entranhas noturnas
E as estrelas brilharam indolentes
Transformando-me em pó de teu universo
Confuso
Deixei-me aprisionar

Cacos


Sentiu o metal cortar o tecido de seus sonhos e quando abriu os olhos estava no mais profundo bréu bem mais dentro que o próprio corte ao dividir os pedaços e os caminhos. Não havia mais caminho de volta fez o descomunal esforço de seguir adiante junto com o desvelado esforço do pulsar de idéias cadavéricas que brotavam porem estava mais dentro do que um dia pode imaginar da realidade. Tocou a ferrugem do metal e ofereceu a carne viva e suas veias em troca da água que estava dentro de suas retinas azuis. Era noite, dentro do dentro e perdeu os sentidos de tão dentro que esteve que ao sair não encontrou o sonho tecido pelos sentidos que perdeu. A vida era apenas o porto nunca alcançado em vida e hoje suas verdades não têm mais ossos.

sábado, 15 de setembro de 2007

Catarse á Francesa


Em minha luxúria Balzaquiana, mundana,
Ouço ainda gritar teu nome
Miro minha sombra triste refletindo no abajur
Uma dor francesa se alastra pelo anoitecer
E chega dissimuladamente a embalar você:
As estrelas teimavam em pintar o céu
E o vento oscilava entre teus cabelos
Negros e brilhantes como a noite
Suave era a lágrima que pousava
Enquanto você partia
Mar revolto dentro do peito
Lá fora vida seca, amargura incrustada
Entre seus passos havia solidão
Mesmo que ele a observasse,
Mesmo que ela não o notasse,
Tocaria a desolação.
Os pensamentos andarilhos escurecidos
Retornaram para a sala já vestida pelas trevas
Suspirando singelas quimeras
Dentro dos acordes da valsa
Tentou matar um pouco o coração.

Por: Kamila Ail e Luiz Miguel Lisboa
Primeiro poema que se tem noticia feito por msn em uma noite

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Barco ao mar


Barco ao mar, o chão é um vagar sem fim
Aportar sem que haja porto...
Eu sei que meu lugar nunca é aqui...
Então vou sem que saiba pra onde
Estou sempre longe
Preciso ainda seguir...

Leve-me com você
Por direção qualquer
Sei que não vai haver a rota exata...
Deixe correr em vão
Sem fundo esta paixão
Rio que perde o chão é catarata...

Sem lugar sou um estrangeiro em mim
Repousar sem que haja pouso
Essa cidade se desfaz...
Se refaz sem fim...
Mesmo assim não me encontro nela
Me escondo nela
Não sei mais de onde vim
Perambulo sem precisão
Transeunte comum
Não me acho na multidão
Sou igual qualquer um...

Leve me com você
Por direção qualquer
Sei que não vai haver a rota exata...

domingo, 29 de julho de 2007

Dissonancia - 3ª Edição- Rock Indie Fest Edition


Como não melhorei ainda da garganta segue o podcast com algumas bandas de rock que eu curto, Mas logo voltarei ao normal

Parte 1
1. Muse- New Born(live Glastonbury)
2. Kings of Lion- Charmer
3. The Libertines- Last Post On The Bugle
4. The Walkmen- The Rat
5. Tokyo Police Club- Nature of the Experiment
6. Bloc Party- Helicopter
7. Canto dos Malditos na Terra do Nunca- Como Seria
8. Air Traffic- Charlotte
9. Plasticines- Loser
10. Supergrass- Mary
11. Maccabees- First Love
12. The Rakes- 22 grand Job

Parte 2
1. Iliketrains- Terra Nova
2. Belle & Sebastian- We Are The Sleepyheads
3. Sonic Youth- Incenerate
4. StereoPlasticos- Lonas Bicolores
5. Yeah Yeah Yehs- Maps
6. Rockz- Confesso que errei
7. Cartolas- Sujeito Boa Praça
8. Klaxons- Golden Skans
9. Moptop- O Rock Acabou
10. The Pigeon Detectives- You Know I Love You

Derradeiro


Apenas ouvi os dias passar,
A noite passa e os sonhos se perdem como gotas frias,
Claro que não vou chorar, essa é a ultima

Sempre que me ver andando por aí
E mesmo assim volte só
Para me dizer "não"
As sombras que eu tentei largar
E as noites que eu pensei amar
São tão iguais, essa é a última

Sem chance de voltar atrás
E o tempo se desfaz
De tudo que andei
O silêncio um dia prova
A aventura de mais uma noite
Que sempre vem, essa é a ultima

Se todo canto é tão vazio
Meu sonho se desfaz tão frio
Em noites intermináveis
Essa é a última

As fotos na parede eram sim
Fantasmas a me espreitar
Eu sei que isso tudo um dia acaba
Agora eu não sei evitar
O sentimento que não se cala

Última
A sorte de mais lamento
Tão vazio
e nem o dia por mais bonito, só
a última...
por tudo isso, é que eu insisto...
...na última dose

quinta-feira, 26 de julho de 2007

The Rocky Horror Picture Show




Sobre um fundo preto, uma boca vermelha e carnuda canta "Science Fiction Double Feature", música de abertura do filme The Rocky Horror Picture Show
Em tempos de “High School Musical” venho humildemente falar de outro musical chamado “The Rocky Horror Picture Show” que é um filme divertidíssimo feito em 1975. Pegando aqueles velhos clichês de filmes de terror como castelo mal-assombrado, gritos de moçinha e outros, o filme se utiliza destes elementos de forma bastante sarcástica fazendo com que você divirta com o modo como eles foram totalmente reconstruídos. Outro grande destaque do filme é a sua trilha sonora muito boa, repleta de grandes músicas do bom e velho rock'n'roll, deste modo somos apresentados a um verdadeiro show. Raramente, vemos um musical assim. Repleto de humor e músicas variadas, como a “Time Warp”, a melhor das músicas, e muito outras.
A historia do filme é bem sem-noção, mas encaixa-se perfeitamete dentro do clima anárquico e de valorização do prazer e da diversão ao qual o filme propõe. Logo de inicio somos a Janet (Susan Sarandon em inicio de carreira) e Brat (Barry Bostwick) que é o casal que se ama, mas que não provaram do fruto proibido que por um problema no carro são obrigados a pedirem auxilio em um estranho castelo sem saber que ele é habitado por alienígenas do planeta Transexual. Lá são apresentados ao professor Frank-N-Furter (Tim Curry- sabe o professor tarado do todo mundo em pânico 2, o próprio) um transexual da Transilvânia em um interpretação incrível que foi fundamental para o equilíbrio desta interessante produção, sem sua atuação em que vira a personificação perfeita do delírio ao qual é todo o filme, este perderia a graça, não sei Mick Jagger que queria esse papel conseguiria tal resultado.
Com músicas bem amarradas as cenas como Sweet Transvestite, o filme se destaca com algumas cenas como quando é cantada a musica “Janet” onde coadjuvantes pronunciam de maneira fria “Janet” totalmente diferente do que a cena musical é feita ou quando Susan Sarandon canta “Touch me”.
Os musicais são legais, claro nada comparado as coreagrafias de grease ou hair mas são curiosas. Embora seja divertido, a fotografia deixa a desejar, e os efeitos visuais são típicos da época, mas nada que tire os méritos desse filme insano.

Ornatos Violeta - Capitão Romance

Participação de Gordon Gano

tappi tikarras

Bjork old school

my little problem bench sleeping

Calmaria em uma tarde fria

Dissonancia - 2ª Edição- Gripe Edition





Com o nariz entupido, garganta doendo, totalmente resfriado dá inicio a 2ª edição dodissonância que destaca: o rock com influências de filmes de terror do the horrors sendo que o nome de um do baterista é uma homenagem ao nosso Zé do caixão, música do Superguidis, poema de Manuel Bandeira, Wando old school, a guitarra de Lanny Gordin, Gordon Gano do lendário Violent Femmes cantando em português e toda a libido da música do mestre SergeGainsbourg



1. The Horrors- Sheena Is A Parasite
Pasargada- Manuel Bandeira- Interp. Antônio Abujamra
2. Superguidis- Mais do que isso
3. Wando- Nega De Obaluae
4. Frank Jorge- Vida de Verdade
5. Supercordas- Meu Vidrinho de Fluido Oníricos
6. Erasmo Carlos e Los Hermanos – Sábado Morto
7. Erasmo Carlos- Cachaça Mecânica
8. Tom Zé- Senhor Cidadão

Bloco 2

1. Lanny Gordin e Rodrigo Amarante- Evaporar
2. Gotan Project- Tangitos
3. Ornatos Violeta (Portugal) e Gordon Gano- Capitão Romance
4. SergeGainsbourg- En Melodie

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Produto descartável


Recorta-se, a retina, o ponto cego.
Desvê e focaliza o que não há
Circundante, refina a falta- e nego
Aura que profetiza, mas virá
Inútil aspirina (que em vão pego)
A dor me localiza no sofá
E dói e arranha e me apossa com esmero
Sozinha não veio, trouxe mais uma inquilina com rudeza.
Lágrimas brotam e formam coágulos de tristeza
Num lado se organiza e para lá
Constrói sua obra, o mal-estar.
Então se espalha o corpo, na distância.
Do rosto, perde a cor, porém a ânsia.
Ao dedo, alívio cobra – vomitar.
Enfim a plenitude em bile essência
Minuto de saúde e consciência.

Começou no sábado


Começou no sábado entrando pelos vãos da janela, depois foi invadindo o quarto e aos poucos foi tomando forma e vida, não demos muita importância a ela e no dia seguinte ela não parecia tão estranha para nós. Deve ser assim que os cegos perdem a visão, um pouco a cada dia sem dar conta, até que um dia não vêem mais nada
Porém como todo o ser humano logo nos adaptamos com o intuito de fazer seguir em frente e assim seguimos em meio a nevoa, quando não conseguíamos mais respirar e os olhos ardiam era necessário abaixar a cabeça e respirar o ar fresco do chão, mas a névoa, agora é intensa, parte dela a compreensão.
O ar puro e limpo e a visão do distante não importam agora, somente sobreviver na névoa e acostumar-se com a presença da sombra. Quanto mais se adentra nela mais você quer dominá-la e entendê-la, os seres bem vestidos dizer estar mais adaptados a névoa juram que conseguem manter os olhos abertos, mas de nada adianta. Os seres espertos as mesmo tempo que querem ser parte dela, querem derrotá-la, e ver beleza em algo que não há.
Tentamos achar o caminho que conduz ao lado de fora, fizemos anotações, levamos pedras para saber o caminho, riscamos em paredes, mas de nada adianta sem percebemos tudo gira e encontramos tudo ao contrário do que pensávamos novamente, um saco de pedras, toneladas de idéias por entre becos e vielas que se esvaiam pelo caminho em vão.Sem encontrar saída, exauridos e sentados em cima do próprio ego cansados de procurar, quase em lágrimas, ouvimos o canto impreco da garça que sobrevoava nossas cabeças com sua imponente beleza projeta-se contra a cortina de névoa suas belas formas, as palavras flutuavam e tudo era relativo. O conflitante é intenso, o antagônico é coerência A Garça é assim, a natureza fez dela um ser complexo demais para se dividir, se explicar, ela simplesmente é. O ar volta a ser leve, a visão normaliza, os sentidos recobram. O alívio é revigorante, o espetáculo da natureza findou assim como a lei da névoa em que não há regras, não há horizonte a ser vislumbrado, nem futuro a ser previsto, o certo e errado são uma questão, só uma questão

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Dissonancia - 1ª Edição


Esta ai a 1ª edição do dissonancia. Nessa primeira edição você confere bjork em sua primeira banda, strauss funkiado, nova música do pública noel rosa, almirante e braguinha em um mesmo grupo. desculpe as falhas tecnicas

1-sara tavares- portugal kuya
2- ronnie von- espelhos quebrados
3- Tappi Tikarass- Ottar
4- Elis Regina e Tim Maia- These Are the Songs (Esta É a Canção)
5- Poets- Nostradamus (banda do Ricardo silvestrin)
6- Apanhador Só- Maria Augusta
7- Pública- Quarto das armas
8-Maquinado- Sem Concerto
9-Bando dos Tangaras - Lataria
10-Beth Carvalho e Golden Boys- Andança
11-Ludovic e Vanguart- Leonor (mundo livre S.a)
12-Eumir Deodato- also sprach zarathustra (Straus)- nietzsche

Rotina

Todos os dias a mesma hora, o mesmo ponto, o mesmo ônibus, o mesmo motorista, o mesmo cobrador, os mesmos passageiros, as mesmas paisagens, o mesmo itinerário, o mesmo terminal. Mariana decidiu então, durante o dia, morar na mesma fileira de bancos sempre vazios do fundo do corredor.
Os olhos não têm opção. Nenhuma chance para além da linha que separa a calçada da rua. Como um muro, os veículos em fila indiana mostram vidros escurecidos, em cujos reflexos a vida move-se fosca e distorcida. Mantém o silêncio para o que não pode ver. Sente a dor dos raios do sol quando se estilhaçam nas cores imóveis dos carros. A sede é de água e os gestos são promessas não cumpridas. Sabe o tempo da renúncia, a vida como musgo entranhada na laje. Os olhos não têm opção. Nem quando o espaço vaza e as velocidades confundem os seus segredos do lado de dentro das lembranças. A morte não é mais sofrimento. A sede é de água e os ventos sopram para além da noite. O que a denuncia é esse fone de ouvido insistente em reproduzir Led Zeppelin a alto volume.
À noite, deseja conhecer a vida. E seu único medo é o de ser a primeira a apagar a luz.

A Estatua


Os golpes eram lentos e milimetricamente medidos, sem possuir olhos fiquei um bom tempo sem saber quem era meu algoz sei que pedaços de mim caiam ao chão e outros se esvaiam ao vento, aos poucos fui tomando forma e que logo a pedra bruta que fui se transformou em um corpo, um corpo ausente, sem matéria menos que fóssil oco da presença.
Tal ausência modelada inútil até lapidarem meus olhos e conseguir ver onde morava e quem me criara fiquei estático ao ver no chão pedaços do meu ser, poeira do que foi, ainda pedaços de corpos, coisas que poderia ter sido, coisas que talvez fui e foram destruídas e mesmo assim acreditei na vida que ele entalhava bem mais que na vida que tive.
Logo estava pronta a obra do barro descozido da incerteza, e assim que tive consciência do existir fui condenado à contemplação vazia do olhar de fora. E lá fiquei eu, um nômade de um só lugar apenas pedra cisão.

O Visitante


Quando percebi o relógio já marcava 02h00min da manhã e o filme já havia terminado não me recordo o nome sei que era sobre um cara gordinho que se apaixona por uma bailarina e a engravida enquanto ela estava em coma, levantei do sofá e certifiquei que já havia fechado as janelas, vedado vãos e tapado frestas de minha casa.
Troquei de roupa e fui dormir, pois amanhã seria mais um dia de uma rotina inglória que me acostumei acordar as 06h da manhã tomar banho, tomar café, dar oi para os vizinhos, pegar um ônibus, passar o cartão, ficar seis horas em um escritório, um cigarro, um café, voltar para casa e dormir, mas naquela noite não conseguia dormir mesmo certificando pela segunda vez que havia fechado bem a casa, ele imperceptivelmente conseguiu entrar em minha em casa mesmo com o breu que cobre meus olhos sinto que ele esta em meu quarto ouço o ruído de suas asas cantando uma música impreca que não conseguia compreender crescendo a tortura dentro de minha mente, quando o ruído cessa por alguns momentos acendo a luz e fixo os olhos na parede, mas não consigo distingui-lo entre tantos pôsteres, fotos e cores. Quando fechei a casa resolvi fugir da hostilidade e coisas torpes que há da porta pra lá o que de certa forma foi bastante fácil, pois não foi necessário muito esforço agora era só deitar e espera um novo dia. No inicio conservava lembranças de um antes e um depois, de um humano e um divino, do certo e do incerto tudo separado em partes cuidadosamente distintas. Depois que ele impôs sua presença em meu quarto, tudo se confundiu em uma só parte e me transformei nesta massa uniforme e compacta.
Com certa porfia ele conseguiu ultrapassar minha epiderme, invadindo meu imo, senti a brutal ardência de sua sede pela minha suma substância e sinto-o colocar outro líquido em minhas veias que flui de forma bruta e queimante e que vai atingindo todos meus órgãos até atingir meu estômago com uma força emética, vomito uma massa espessa e nela consigo distinguir coisas que há muito tempo tinha engolido minhas mentiras, revistas inúteis, meus vícios, TV, blockbusters, magoas e produtos de publicidade e me sinto muito mais leve e livre.
Ergo-me e a tudo em torno miro inda do desconforto perturbado, em que imergi e trêmulo pego uma vassoura chego a vê-lo voar circularmente sobre a minha cama, mas não consigo atingi-lo, pois não posso ir além do chão e me indaguei que deus criou tão insignificante ser, distraído para a morte ele pousa inerme e deixa sua existência em minhas mãos com um golpe certeiro acabei com a insistência desse mosquito em me deixar acordado, feliz poderei dormir sossegado e continuar minha improfícua vida acabara de matar minha consciência.

Balada das duas mocinhas de Botafogo

Eram duas menininhas
Filhas de boa família:
Uma chamada Marina
A outra chamada Marília.
Os dezoito da primeira
Eram brejeiros e finos
Os vinte da irmã cabiam
Numa mulher pequenina.
Sem terem nada de feias
Não chegavam a ser bonitas
Mas eram meninas-moças
De pele fresca e macia.
O nome ilustre que tinham
De um pai desaparecido
Nelas deixara a evidência
De tempos mais bem vividos.
A mãe pertencia à classe
Das largadas de marido
Seus oito lustros de vida
Davam a impressão de mais cinco.
Sofria muito de asma
E da desgraça das filhas
Que, posto boas meninas
Eram tão desprotegidas
E por total abandono
Davam mais do que galinhas.

Casa de porta e janela
Era a sua moradia
E dentro da casa aquela
Mãe pobre e melancolia.
Quando à noite as menininhas
Se aprontavam pra sair
A loba materna uivava
Suas torpes profecias.
De fato deve ser triste
Ter duas filhas assim
Que nada tendo a ofertar
Em troca de uma saída
Dão tudo o que têm aos homens:
A mão, o sexo, o ouvido
E até mesmo, quando instadas
Outras flores do organismo.

Foi assim que se espalhou
A fama das menininhas
Através do que esse disse
E do que aquele diria.
Quando a um grupo de rapazes
A noite não era madrinha
E a caça de mulher grátis
Resultava-lhes maninha
Um deles qualquer lembrava
De Marília e de Marina
E um telefone soava
De um constante toque cínico
No útero de uma mãe
E suas duas filhinhas.
Oh, vida torva e mesquinha
A de Marília e Marina
Vida de porta e janela
Sem amor e sem comida
Vida de arroz requentado
E média com pão dormido
Vida de sola furada
E cotovelo puído
Com seios moços no corpo
E na mente sonhos idos!

Marília perdera o seu
Nos dedos de um caixeirinho
Que o que dava em coca-cola
Cobrava em rude carinho.
Com quatorze apenas feitos
Marina não era mais virgem
Abrira os prados do ventre
A um treinador pervertido.
Embora as lutas do sexo
Não deixem marcas visíveis
Tirante as flores lilases
Do sadismo e da sevícia
Às vezes deixam no amplexo
Uma grande náusea íntima
E transformam o que é de gosto
Num desgosto incoercível.

E era esse bem o caso
De Marina e de Marília
Quando sozinhas em casa
Não tinham com quem sair.
Ficavam olhando paradas
As paredes carcomidas
Mascando bolas de chicles
Bebendo água de moringa.
Que abismos de desconsolo
Ante seus olhos se abriam
Ao ouvirem a asma materna
Silvar no quarto vizinho!
Os monstros da solidão
Vinicius de Moraes
http://www.portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=4837#

A Caixa


Espécie abjeta
Com seus liames de ferro e estanho
Torna-me escravo de minhas ânsias
Prisioneiro endêmico da inércia orgânica
Metamorfoseio em langanho

Como quem olha a própria sepultura
Encarcera seu âmago em uma caverna escura
Anestesiando a transcendência oriunda

Coloca cabrestos com sua destreza programada
Oferecendo avitaminose
Como óbolo dessa felicidade imaterializada

Cresce a torturante cefaléia
Ouvindo a melancólica sucessão dos segundos
Deixando para trás o filicífero de idéias